37ª Mostra de Cinema em SP – Filme #11 – O Deserto dos Tártaros

Li numa crítica que esse era o “2001 Italiano num deserto”. Duvidei muito, mas quando assisti à técnica e à beleza cinematográficas apresentadas em O Deserto dos Tártaros, de 1977, eu chego ao ponto de ~quase~ concordar. Quer dizer, 2001 é um clássico absoluto em termos experimentais e cinematográficos, mas O Deserto dos Tártaros é uma pérola italiana de técnica apurada e de beleza absurda.

Contando a história do tenente Drogo, o filme é basicamente um espantoso estudo sobre a solidão e a ignorância em relação ao tempo. Ele tem mais de duas horas de duração, com um ritmo que pode não ser o dos mais agitados, mas que é conduzido hipnoticamente junto com a direção de fotografia para manter o espectador penetrado no filme, sendo levado pelas cenas, sem perceber que semanas, meses e anos estão se passando. Ao final do filme você percebe que MUITO tempo se passou desde o começo, e você sente o efeito desse tempo nos personagens. Porém o filme é tão bem construído – narrativamente falando – que você não se perde na monotonia repetitiva da maioria dos recursos narrativos que são aplicados em situações similares.

Outra coisa que me encantou no desenvolvimento da história é a sua semelhança com algumas histórias de RPG. Os ganchos estão lá, os cenários e os problemas estão lá… é como se O Deserto dos Tártaros fosse um módulo de campanha de Dungeons and Dragons, e um dos mais divertidos de se jogar. Eu sei que não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas tá aí uma curiosidade interessante para os fanáticos por mestrar aventuras interessantes: MUITOS ganchos e plots são entregues pelo O Deserto dos Tártaros.

Sem sombra de dúvidas, a cinematografia desse filme é uma das coisas mais belas já criadas. Creditada para Luciano Tovoli, cinematógrafo de Titus e do clássico do terror italiano Suspiria, a direção de fotografia de O Deserto dos Tártaros encanta por seus planos profundos, pelo trabalho magistral das sombras (a cena no portão da fortaleza é de tirar o ar) e pela sua beleza, mesmo em um cenário tão árido e isolado. Além do mais, a forma como a câmera se encaixa nos planos é sensacional. Não é só saber criar a iluminação perfeita para a cena, é também passar experiências de claustrofobia, medo e solidão. Uma das melhores cinematografias que já vi na vida, desde a Árvore da Vida (do Emmanuel Lubezki) e dos filmes do Ron Fricke.

Assista O Deserto dos Tártaros. Simplesmente isso. O filme, como eu já disse, aborda muito bem a solidão, num desenvolvimento interessante dos personagens. Além do mais, a cinematografia, como eu não canso de repetir, é sensacional, uma obra de arte. E a história é interessantíssima, apesar de terminar de forma diferente da do livro. Mas se você quer um filme capaz de tirar o seu fôlego com cenas extremamente bonitas e tocantes, então você deveria estar assistindo esse filme agora mesmo.

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