37ª Mostra de Cinema em SP – Filme #9 – Ana Arabia

Tecnicamente falando, Ana Arábia é magnífico. Um plano-sequência enorme de 81 minutos. Considere o número de tentativas necessárias para conseguir realizar o filme inteiro em um take apenas. Apesar da “visão de documentário”, como explicado pelo diretor Amos Gitai, facilitar um pouco a execução desse trabalho, ainda assim é uma obra que merece respeito pelo seu esforço e ousadia.

Porém, narrativamente falando, Ana Arabia peca em alguns sentidos que acabam não deixando o espectador interessado na história. Primeiro que há um distanciamento enorme entre nós e os personagens. Durante o filme inteiro nós acompanhamos uma jornalista que está angariando histórias numa pequena vila, e essas histórias servem para ilustrar a “personalidade” do local e de seus moradores. No entanto, a própria jornalista é uma “outsider” no meio daqueles moradores, e nós somos colocados como “outsiders” em relação à jornalista. Ou seja, estamos distantes demais dos personagens e de suas histórias para nos preocuparmos com eles, para darmos atenção a eles e para nos sentirmos confortáveis com eles. Esse distanciamento acaba por influenciar no ritmo da história – que se torna lento demais – e por tornar o filme um tanto entediante às vezes.

Como o filme é inteiro baseado em diálogos, logo me chega à mente a trilogia Before e Apenas o Fim, que são filmes que seguem esse padrão. Porém comparar Ana Arabia com Apenas o Fim seria uma injustiça, uma vez que este tem diversos cortes e transições. Já com alguns filmes da Trilogia Before, especialmente o último, Before Midnight, a comparação se torna um pouco mais justa. Na segunda cena de Before Midnight, num plano-sequência de uns 15 minutos, você se sente tão imerso na naturalidade e realismo dos diálogos que parece que você é um amigo de longa data daqueles dois, e isso torna o filme, e especialmente essa cena, muito mais agradável que qualquer uma das conversas realizadas no Ana Arabia.

Para não dizer que apenas critiquei o filme, a fotografia dele também é muito boa. Como eu disse, a “visão de documentário” é um tanto mais simples de ser feita, com a câmera handheld passeando pelos cantos, mas ainda assim há um esmero nos enquadramentos propostos. Eles não são geniais, mas levando-se em consideração a proposta, você consegue enxergar que eles são muito bem compostos. Ponto positivo para eles.

Ana Arabia não tem a melhor história de todas. Em fato, ela é extremamente lenta. Se ao menos houvesse uma aproximação entre o espectador e quem está contando aquelas histórias, como uma informal conversa num café francês – a exemplo de Before Sunset – talvez o filme fosse muito melhor. Mas ainda assim eu recomendo que assistam, mesmo que por curiosidade, para ver a qualidade técnica do plano-sequência dele. Muito bem construído, e tem seus méritos por isso.

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