A Vida Secreta de Walter Mitty

“Ver o mundo e os perigos que virão, ver por trás dos muros, chegar mais perto, encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida”.

Que maneira sensacional de começar minhas idas ao cinema em 2014. Com um tema sutil, uma qualidade técnica impecável e uma mensagem delicada e poderosa, A Vida Secreta de Walter Mitty é um filme extremamente belo, daqueles que precisam ser assistidos várias vezes e várias vezes. Apesar do seu conceito ser extremamente simples para ser captado logo na primeira assistida, as suas cenas indescritivelmente belas necessitam de uma reavaliação para que se capte toda a sua magnificência.

Essas cenas, fotografadas incrivelmente pelo Stuart Dryburgh (Um diretor de fotografia digno de atenção, principalmente em seus trabalhos vindouros), são uma obra de arte. As próprias internas são dignas de palmas, mas as externas são as que fazem o queixo cair e os olhos brilhar. Acompanhando a cena do helicóptero – que, aliás, é uma das minhas favoritas do filme, com a Space Oddity e tudo mais -, passando pelas cenas na Islândia (puta que pariu, que país lindo!) até a cena do futebol no Himalaia – essa, uma cena no nível do Ron Fricke, mas figurando num filme Blockbuster – você percebe o impacto que essa visão do mundo causa no Walter Mitty. Em todas elas, aliás, uma característica impera: Planos extremamente abertos. É essa visão ampla do mundo, que nos dá a metáfora de que o Walter finalmente está vendo o que havia por trás da mesa do seu escritório. Até ele tomar controle da situação e começar finalmente a agir ao invés de planejar, os planos são todos “padrão”, ligeiramente claustrofóbicos, remetendo à pequenidade do prisma em qual o Walter via o mundo. Assim que ele começa a agir, os planos se abrem e o que você vê é só beleza.

Outro fator que valoriza o trabalho da fotografia é algo que, infelizmente, vem sendo bastante substituído no cinema atual: O uso real de locações. Com o advento da tela verde e da computação gráfico ao nível da CryEngine 3, fica fácil criar ilusões de lugares e simulá-los na tela. No entanto, o simples fato de colocar o ator e a câmera no lugar onde eles deveriam estar – ao invés de um estúdio verde imenso – é o que dá o ar quase mágico e emocionante para o filme. Aliás, ver que existem lugares como aqueles é algo simplesmente sensacional, especialmente se você é um fã de paisagens e da beleza proporcionada pela natureza. NADA vai impactar tanto o espectador como a vista de uma descida de longboard pelas montanhas da Islândia. Nada.

Você provavelmente já deve ter lido em algum lugar que esse filme é inspirador, emocionante, ou um “powerpoint hipster de auto-ajuda”. Eu concordo com as duas primeiras partes, e explicarei o motivo. Em A Vida Secreta de Walter Mitty, nós vamos acompanhando por quase duas horas (RANDOM: Esse tempo está se tornando cada vez mais padrão no cinema, deixando a clássica 1h30 pra trás, ou é só impressão minha?) a história de um cara reclamão e que tinha uma vida de merda, até finalmente começar a agir ao invés de planejar. As mudanças às quais ele se submete, assim como as metáforas que o filme traz, são SIM inspiradoras. Eu viajo muito com a cena final do filme, e tenho a minha própria interpretação para ela, e concordo que é uma das coisas mais belas que vi desde o final de Beasts of The Southern Wild e A Árvore da Vida. Apenas o fato do Walter trabalhar no setor de ~negativos~ duma revista chamada ~Life~ já mostra o nível que as metáforas vão seguindo.

Além do mais, são 04:40 da manhã do dia 03/01 e eu estou morrendo de sono. Por que não fui dormir e, ao invés disso, vim escrever esse texto? Porque eu já vi esse filme duas vezes neste ano (Isso mesmo) e não consigo parar de pensar nele, especialmente na última cena. E eu preferi compartilhar a experiência sensacional que ele me proporcionou a simplesmente dormir (e olha que eu gosto de dormir). Agora tire suas conclusões sobre o fato do filme ser inspirador ou não.

Todos os outros fatores merecem atenção e palmas, como a direção (Ben Stiller DESTRÓI MUNDOS NÓRDICOS por trás das câmeras), a atuação (Kristen Wiig mostra que é MUITO mais que apenas uma comediante padrão do SNL, e o Sean Penn mostra como impactar um filme mesmo sendo onipresente em 90% dele) e a trilha sonora (Arcade Fire, David Bowie, Of Monsters and Men, Jose Gonzalez… você realmente precisa de mais alguma coisa?). Mas eu realmente preferi focar na cinematografia e na experiência de assistir essa obra no cinema, porque acho que em qualquer outro lugar seria um “bottleneck” em tudo o que filme se propõe a te passar. Não vou clamar que é o melhor filme do ano, seja do passado ou deste. Acho que o filme não cabe nessa colocação. Para quem acompanha os jogos, eu o compararia a obras como Gone Home e Journey, experiências únicas, impossíveis de explicar a essência, e apenas palatáveis e digeríveis àqueles que a veem.

Se você ainda não viu, veja. Se você tava em dúvida para saber se assistia ou não, veja. Se você tem birra com o Ben Stiller, e gritou para todos os céus que não ia assistir esse filme, veja. Se você já assistiu, veja de novo. E leve seus amigos. Leve sua namorada. Leve seu namorado. Leve sua família. Alugue um ônibus ou um Smart, mas leve todas as pessoas com quem você se importa e vá assisti-lo. E aproveite para se divertir e sair de lá com um pouco do Walter Mitty em você. Essa é a melhor maneira de começar o ano (:

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