Metropolis

Metropolis, de 1927, foi um marco para o cinema e especialmente para o gênero da ficção científica por diversos motivos. Sendo um dos pioneiros no debate e no questionamento a partir da expressão da arte do cinema, ele critica a sociedade atual com uma previsão projetada nos ideais Futurismo, além de ser altamente ácido em questão aos métodos e ideais do Capitalismo. Tais questionamentos foram, mais tarde, os principais pilares para a cultura Cyberpunk, tão famosa e conhecida dentro do meio Sci-Fi.

Visualmente, Metropolis carrega elementos que foram revolucionários para a sua época. A direção de Fritz Lang e seu toque expressionista foram essenciais para adicionar uma visão mais elaborada à sua película, especialmente em termos recorrentes à simbologia. Com diversas metáforas recorrentes, como por exemplo o Homem-Máquina, Lang incita a verdadeira percepção dos trabalhadores e do proletariado. Ele critica a alienação dessa classe, tão hibridizada com a máquina Capitalista que torna-se ao mesmo tempo inconsciente e ordenada. Isso também é importante para o levantamento da sociedade alemã da época, circundada pela propaganda Nazista e aos portões de uma revolução.

Revolução, inclusive, é outro fator questionado no filme. Os trabalhadores de Metropolis, tão subjugados pela Nobreza preconceituosa e imponente, tornam-se escravos dos degraus mais altos da piramide social, e são forçados a jornadas inumanas de trabalho, o que os tornavam unos com as ferramentas que utilizavam. Aristóteles criticava a escravidão como um meio criador de “ferramentas vivas”, e esse hibridismo homem/máquina é um tema recorrente no filme, enfatizado pelas jornadas de trabalho diretamente proporcionais ao avanço da tecnologia. Frases como “A máquina não pode parar” e “A máquina precisa de alguém para controlá-la” são utilizadas no filme como uma menção à indústria capitalista que necessita de mão-de-obra humana para continuar funcionando. E como o Capitalismo não conhece freios, o proletariado precisava se adaptar à essa dinâmica literalmente desumana. Por isso tantas referências à união do orgânico com o sintético, afinal essa é a base da força motriz dos ideais capitalistas. Porém, a previsão de Lang era que chegaria um dia em que os trabalhadores iriam se opor à essa exploração dos seus direitos trabalhistas, criando a quebra do Sistema.

A quebra do Sistema também é abordada no filme a partir da destruição da Torre de Babel, o centro da Metropolis. Assim como a Torre de Babel original, da Babilônia, a Torre de Babel de Metropolis traz novamente menção à exploração do proletariado, uma vez que para a construção da Torre original foi necessária a vinda de mão-de-obra de todas as regiões, e após ela ter sido construída, a burguesia e nobreza responsáveis por sua construção ignoraram os ideais dos trabalhadores que a construíram. Como dito no próprio filme, “A mesma linguagem era falada, mas aqueles homens não entendiam uns aos outros”. A destruição da Babilônia é uma menção à destruição da burguesia e do Capitalismo, e esses são exatamente os ideais visados pelos trabalhadores de Metropolis, os mesmos que construíram essa “Babilônia Moderna”.

Outro ponto importante do filme é como ele trata a tecnologia. Isso foi importantíssimo para a construção da ficção científica como gênero expressivo, porque no caso de Metropolis a tecnologia é não só uma parte do background, mas um fator decisivo para a construção da estrutura narrativa. Ela é a catalisadora das decisões dos personagens, é responsável para o ponto central da trama e basicamente toda a linguagem do filme se comunica com ela. Tecnologia em Metropolis não é somente uma coadjuvante que participa trabalha com a narrativa, elas são mescladas de forma a trazer uma nova experiência para o público do filme. Pode-se dizer que essa é mais uma representação da metáfora do hibridismo do homem/máquina, tendo a parte humana, a narrativa, mesclada à parte máquina, a tecnologia, tendo como resultado um filme que pode ser considerado o primeiro grande épico da Ficção Científica.

Outro fator importante para o gênero, como já foi dito, é a sua conversação com a sociedade atual, funcionando como uma ferramente de crítica baseada em projeções Futuristas. Nesse caso, Metropolis foi bancado por uma firma chamada UFA, que era claramente favorável aos ideais Nazistas. Apesar de trabalhar com temas que incitavam a Revolução aos seus espectadores, não podemos tratá-lo somente como uma mídia vinculada com o Nazismo. Fritz Lang era judeu, e tinha em sua película somente uma crítica à sociedade que ele previa, e a forma como o povo poderia se libertar dela.

Por filme, podemos dizer que apesar de não se ter o gênero da Ficção Científica já estabelecido (coisa que só veio a se concretizar da década de 50), Metropolis é o primeiro épico do gênero a passar nos Cinemas, e sua estrutura foi copiada diversas vezes pelos seus sucessores, sendo inclusive, devido a todo o seu caráter crítico, social e revolucionário, um dos pais – se não o próprio pai – do Cyberpunk.

P.S.: Se forem assistir, assistam a versão completa e restaurada, que tem lá suas 2h30. É a que vale a pena e onde vocês conseguirão perceber todas as nuances propostas pela narrativa do Lang, não somente as que foram preservadas.

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