O Dia Em Que A Terra Parou (1951)

The Day The Earth Stood Still, de 1951, é a pedra-fundamental do gênero da Ficção Científica, que até então não estava consolidado. Tornando concreto a ideologia da cultura sci-fi, o filme do Robert Wise trabalha de forma ácida a interpretação da sociedade daquela época, que vivia em meio à Guerra Fria.

O primeiro diferencial deste filme em relação aos predecessores aqui citados é o fato dele possuir uma linguagem teatral quase nula. Em 1951 a cultura do Cinema já estava consideravelmente desenvolvida, então não se era necessário partir de artimanhas cênicas para o complemento narrativo. Os efeitos especiais também já se demonstram num nível elevadíssimo, e cenas como a chegada da nave espacial à Terra funcionaram para criar outro tipo de entusiasta no meio da ficção científica: Os fãs de SFX.

A história, como já dita, é uma crítica sólida à Guerra Fria, que inundava de preocupação todo o planeta durante aquela época. Novamente demonstrando o caráter engajado que o gênero adotou como fundamento, The Day The Earth Stood Still faz várias menções diretas ao problema que ele quer levantar o questionamento, e nesse caso a narrativa funciona de diversas maneiras para isso. Diálogos que mencionam a “destruição em massa”, ainda em momentos iniciais do filme, já nos dão um vislumbre no que está por vir, e nesse caso as críticas vão se tornando ainda mais diretas e sérias.

Klaatu vem à Terra de maneira messiânica explicar o problema que a Galáxia possuía no momento. Uma vez que o nosso planeta estava envolvido em diversos problemas internos, como a “geração de energia atômica e uso desleixado de foguetes” – uma menção clara à iminente guerra atômica prevista naqueles tempos – os habitantes dos planetas vizinhos exigiam – de maneira diplomática – o fim dessas ameaças e desse tipo de comportamento bélico, uma vez que dessa forma a Terra representava um perigo para toda a Galáxia.

Porém, apesar da apresentação desse problema, os políticos de todos os cantos do mundo, reclusos às suas celas ideológicas, decidem ignorar o pedido do Homem do Espaço, fazendo-o recorrer ao Professor Barnhardt. Essa também é outra crítica do filme, mostrando que o verdadeiro poder estava na mão dos assim chamados Homens da Ciência, e não com os políticos – os Homens da Ideologia – ou com os Homens da Fé. Isso também demonstra uma outra característica importante da Ficção Científica, que é tratar a tecnologia como a força-motriz pra todo o restante da sociedade.

Porém o filme também revela as desvantagens desse tipo de sistema ao declarar o plano de Klaatu para obter a atenção da população Terrestre: A neutralização de quase toda a energia elétrica do mundo. Isso fez a sociedade entrar em caos, “correr como formigas” pelas ruas. Essa metáfora implica a fragilidade e dependência da raça humana, que até então se portava como superior e dominante perante a diplomacia vinda de outros planetas, mostrando de forma crítica uma característica importante da raça humana: A petulância exagerada para com pessoas tidas como “não-iguais”. Essa característica também é ressaltada durante uma cena em que Tom Stevens – interpretado pelo Hugh Marlowe – está ao telefone com um sargento do exército tentando expôr à falha o plano de Klaatu. Na cena, Stevens diz para Helen, que estava tentando impedi-lo falando que aquilo iria acabar com o resto do mundo, “Eu não me importo com o resto do mundo”. Essa menção direta ao egoísmo da raça humana contribuem para a construção de mais uma crítica do filme.

Também é importante ressaltar que, mesmo após ter sido diversas vezes atacados pelos seres humanos, Klaatu encerra sua estada na Terra com um ultimato, dirigido e fotografado para parecer um discurso real para os espectadores, como um aviso metalinguístico direto, um conselho que seria necessário para a manutenção da vida neste planeta: “Junte-se a nós e viva em paz, ou nos ignore e encare sua própria obliteração”. Isso soou como um choque de realidade para as pessoas que até então estavam fechadas – assim como os políticos tanto da vida real quanto os retratados no filme – às suas celas ideológicas, e mantinham a rivalidade entre o Ocidente e o Oriente bastante vivas.

Por fim, eu gostaria de ressaltar que foi com este filme que o gênero se estabeleceu, uma vez que seu roteiro extremamente simples e acessível fez o filme ainda mais comercial, estendendo a temática da ficção científica – assim como o calibre de suas críticas sempre diretas e reflexivas – para as grandes massas. Isso parecia ser uma preocupação do tema na época, uma vez que até no The Day The Earth Stood Still a mídia é retratada de forma atrofiadora de caráter questionador, algo escrito em 1984 como a base para a “sociedade-marionete” dominada pelos Homens-Ideologia e os Homens-Fé.

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