O que aconteceu em TwitchPlaysPokemon e por que eu admiro tanto isso.

Rivalidades e religiões foram formadas, houveram discussões, e acordos foram feitos. Planos, mapas e estratégias. Nós superamos os 26 segundos de lag. Nós mostramos que a humanidade pode avançar, mesmo contra pessoas tentando ferrar com o jogo, mesmo quando algumas pessoas não fazem a menor ideia do que estão fazendo, nós prevalecemos. Parabéns galera, nós conseguimos!” – Usuário do Reddit.

Mas então, o que é esse tal de TwitchPlaysPokemon? É um jogo? É uma religião? É um experimento social? Já que estou sem fazer nada nesse Sábado ocioso, vamos conversar sobre isso.

O time que venceu a Elite Four

Pra início de papo, vamos entender o conceito do TwitchPlaysPokemon. Tecnicamente, ele é um emulador de Game Boy rodando Pokemon Red. No entanto, esse emulador está conectado a um bot que, por sua vez, está conectado à TwitchTV (uma rede social de streams). Pra colocar os comandos no jogo, o bot interpreta o que está sendo escrito no chat (“Cima”, “baixo”, “Start”, “A”) e transfere para o emulador. É assim que o Red – o nosso personagem no jogo – vai se movimentando por aí e capturando seus Pokemons.

Não vou me prolongar pra explicar cada passo da jornada, até porque o Izzy Nobre já fez esse (ótimo) trabalho. Vamos, ao invés disso, tentar entender porque as pessoas estão atribuindo os mais diferentes significados para esse que, praticamente, é apenas um experimento técnico.

É um jogo?

É. Disso não se tem dúvidas. Mas o que TPP explorou foi um tipo de Multiplayer onde milhares e milhares de pessoas dão input para apenas UM personagem. É um espelho em relação ao Starcraft, por exemplo, onde um jogador controla diferentes personagens fazendo diferentes ações ao mesmo tempo. Quando jogávamos TwitchPlaysPokemon, éramos, pelo menos, 40.000 usuários enviando comandos pro Red. E ele obedecia todos eles (ou nem todos, mas explico isso melhor mais pra frente), o que criou uma dinâmica caótica, frustrante e sem sentido. Afinal, você dependia de outras dezenas de milhares de pessoas para fazer ele dar três passos pra frente, virar à direita e subir a escada. E ainda assim tinham os trolls, que ficavam spammando comandos inversos ou apertando “Start” só pra diminuir o ritmo de toda a jornada.

É uma dinâmica completamente nova para mim no que se trata de multiplayer, e que poderia ser muito bem explorada, nas suas devidas proporções. Imagine um jogo do tipo Metroid ou MegaMan, no qual o personagem responde ao comando conjunto de duas ou mais pessoas. Isso possibilitaria um exercício de cooperação similar ao de pilotar alguma coisa. Imagine quatro amigos tendo que coordenar suas ações para que o personagem consiga ultrapassar aquelas plataformas complicadíssimas e derrotas aqueles inimigos e chefes! Mas o que eu mais gostei de ver mesmo foi o sentimento de persistência, de superar cada desafio de maneira conjunta. Em momento algum a galera pensou em desistir, mesmo quando foram necessárias 16h para cortar uma árvore (ação que, no jogo normal, você faria em… um segundo?) ou uma quantidade parecida para passar pelo corredor estreito que leva ao Ginásio do Giovanni. Ou seja, mesmo quando colocado à prova pelo mais banal dos desafios, o pessoal se reunia e spammava os comandos corretos para que eles surtissem efeito. É algo bem legal de se compreender, e longe de qualquer coisa que eu já vi em termos de gameplay.

É uma Religião?

Pela graça divina do Helix God, sim! Você pode até considerar exagerado, mas pela definição de religião utilizada em The Encyclopedia of Philosophy, é possível criar esse paralelo. No livro, é dito que uma religião é:

  1.  A crença em seres sobrenaturais (deuses);
  2. A distinção entre objetos profanos e sagrados;
  3. Um grupo social unido por um ser superior;
  4. Rituais focados em objetos sagrados;

E não é que nós temos todas essas características no TwitchPlaysPokemon?

  1. A crença em seres sobrenaturais está nos próprios Pokémons. Após ser consultado várias e várias vezes no meio das batalhas e no meio da própria jornada devido aos spams, o Helix Fossil, item que conseguimos bem no começo do jogo, e que pode ser ressuscitado mais pra frente num Omanyte, foi considerado um “oráculo”. E evolui de oráculo para deus, sendo adorado como ‘The Helix God’, ‘Lord Helix’ e derivados. Sim, por conta de algo tão simples um ITEM do Pokemon evoluiu ao status de deus. Isso me faz parar pra pensar nas outras religiões que temos no mundo, e a origem visceral delas. Se 32 milhões de pessoas acompanharam uma stream de Pokémon e aderiram à religião do ‘Deus Fóssil’, imagine como deve ter sido em outras religiões. Além do Omanyte, há também outros Pokémons de status sagrado, como o Pidgeot – que havia sido intitulado Messias nos primórdios da jornada, e após ter o seu nome trocado para aaabaaajss foi oficialmente declarado “Abba Jesus” -, o Zapdos – nomeado AA-j e rapidamente entitulado como “Aerial Archangel of Justice”.
  2. Essa distinção ocorreu desde o começo do jogo, também. Quando o Eevee foi capturado, ele foi enviado para o Bill’s PC (que no jogo serve como o depósito de Pokémons), uma vez que o limite de Pokémons que podemos levar ao nosso lado na jornada já havia sido preenchido. Quando os comandos caóticos finalmente nos levaram até um centro Pokémon, de onde pudemos acessar o PC, aconteceu um desastre: Abby K. (Apelido para ABBBBBBK), nosso Charmeleon, e Jay Leno (Apelido de JLVWNNOOOO), o nosso Ratata, foram largados de volta na natureza. Eram dois dos nossos Pokémons mais fortes, e eles foram largados lá para que pudéssemos ter o Eevee no nosso time. Isso fez com que todo mundo começasse a odiar o Eevee, nomeando-o “O Falso Profeta”. Ele era o símbolo do mal, junto do Dome Fossil, o fóssil oposto ao Helix Fossil, que se tornou o nosso deus. Então os objetos sagrados podem ser designados: O Helix Fossil e o S.S. Ticket (item utilizado para embarcar num navio, e que era consultado tantas vezes quanto o Helix Fossil), assim como os objetos profanos também: Basicamente, o Dome Fossil e tudo que fosse relacionado ao Eevee.
  3. Consideremos esse “ser superior”, o próprio Red. Ou o próprio jogo. Ou até o próprio God Helix. Ele nos manteve unidos. Os números da TwitchTV mostram que foram, no total, 36,573,194 visualizações distintas, além de uma média de 60.000 pessoas assistindo, todas as horas do dia. Éramos vários estranhos, interligados apenas por UM ser superior.
  4. Sobre essa parte dos rituais eu gostaria de citar o usuário Immaneuel_Kanter do reddit. Lá no subreddit relacionado a TPP, ele escreveu um post criando uma excelente comparação. Sendo graduado em Filosofia Religiosa, Immanuel citou o conceito da Efervescência Coletivae como isso se aplicava TANTO para o Hajj, o mais famoso ritual muçulmano, e para o TwitchPlaysPokemon. Transcreverei o que ele colocou no post original:

a) O Hajj é baseado numa peregrinação Histórica. TwitchPlaysPokemon é baseado na longa jornada que nós tomamos como criança.

b) No Hajj, todo mundo se veste da mesma forma, então é tecnicamente impossível distinguir as pessoas que estão lá. No TwitchPlaysPokemon, nós todos somos anônimos. Com exceção dos nicks que diferenciam um do outro, não há nada que distingua os participantes. Somos todos encarregados de controlar o ‘Red’

c) Durante os cinco dias do Hajj, centenas de milhares de pessoas se deslocam de um lugar para o outro, fazendo rituais simbólicos que representam a peregrinação original. No TwitchPlaysPokemon, nós caminhamos de um lugar pré-determinado para o outro, completando determinadas ações em ada um dos lugares, como derrotar líderes de ginásio e atravessar o Rocket Maze.

d) No Hajj há longos períodos de repetição verbal, veneração a Deus, e de provação. No TwitchPlaysPokemon, nós voluntariamente escolhemos um sistema de Anarquia, simplesmente porque é mais difícil. Passamos mais tempo em áreas que conseguiríamos completar em poucos minutos, mas tomamos isso como uma provação, um símbolo de adoração ao God Helix.

No final das contas, TPP tem todas as características de uma religião. Temos deuses, santos e heróis. Temos os momentos de provação, nossos próprios rituais. Somos interligados por um ser superior sagrado, e criamos ensinamentos.

É uma Cultura?

Segundo o livro Multicultural education, de Banks, & McGee, Cultura é “uma soma dos aspectos simbólicos, ideacionais e intangíveis das sociedades humanas. A essência da Cultura não está em seus artefatos e ferramentas, mas como os membros de um determinado grupo os interpreta, percebe e usa”.

Considerando isso, TPP é sim uma Cultura. Pegamos diversos símbolos do jogo e os interpretamos da NOSSA forma. Exemplos como o All Terrain Venomoth (ou, depois da Elite Four, The Dragon Slayer), o Dux, o nosso príncipe Lapras, o Rei Nidoking… além de todos os exemplos que são ligados diretamente à questão “religiosa”, que é o caso do God Helix, Abba Jesus, o falso profeta, etc. Colocarei aqui uma galeria de imagens que representam toda a Cultura do TwitchPlaysPokemon, para que ilustre melhor essas definições.

Mas pera aí. TPP tem uma religião e uma cultura própria. Somos… uma sociedade?

Primeiro, vamos observar a definição de sociedade. Os próprios estudos da Sociologia mostram que ‘Sociedade’ nada mais é que um conjunto de pessoas que compartilham gostos, objetivos e costumes, além de agir sob um senso de comunidade. E observando dessa forma, encaixamo-nos nesses requisitos.

Há um gosto comum pelos mesmos Pokemons, pela história e mitologia que foram criados, pelo próprio jogo em si, pelas discussões geradas… além de que, desde o começo, focamos bem nos objetivos: Queríamos zerar o jogo, vencer a Elite Four e o nosso rival, Blue. Mas haviam também os objetivos menores, como atravessar áreas complexas (mesmo em condições normais) e derrotar líderes de ginásio. Precisávamos ensinar golpes novos para os nossos Pokémons, além de capturar novos. Precisávamos retirar Pokémons do depósito sem sacrificar outras almas. Fora os costumes, que variaram das mais diferentes formas, mas que sempre envolviam participar do que estava acontecendo na stream. Fosse gerando arte, estratégia, memes… tudo foi girando em torno da stream de uma maneira que excedeu os limites da internet.

Hoje, dia primeiro de Março de 2014, foi proclamado o “Helix Day” no subreddit do TwitchPlaysPokémon, e comemorado por todos os que participaram dessa conquista (eu incluso!). Além do mais, está rolando uma petição para tornar esse um feriado oficial, e ser relembrado todo dia primeiro de Março. Houve também o dia em que foi reconhecido como Bloody Sunday, quando acessamos o Bill’s PC e demos release em alguns dos nossos Pokémons mais fortes e que estavam conosco desde os primórdios da jornada. O luto e a comoção por esse momento foi tão grande quanto o que aconteceu no ‘release’ de Jay Leno e Abby K.

Aí você deve estar se perguntando “Mas porra, é uma sociedade e tudo mais… mas quem governa isso?”. Aí é que tá. Depois de muito ser pedido, foi implementado um OUTRO sistema de comandos, que você poderia definir a forma como o jogo seria comandado. Se você escrevesse “Anarchy” no chat, ele adicionaria um voto ao sistema de Anarquia, o original, onde tudo que fosse colocado no chat seria interpretado pelo bot e levado para o jogo. No entanto, se você votasse “Democracy”, ele levaria um voto para o sistema de Democracia, onde o bot só interpretaria o comando mais votado, mas apenas depois de um curto período de tempo (geralmente levava uns 5s, mas pra o ritmo frenético ao que estávamos acostumados, isso era uma eternidade).

Isso também criou discussões sobre qual das formas de governo seria a mais eficiente, o que fez muita gente que até então não estava nem aí para questões políticas se meter em debates sobre Anarquia e Democracia. Eu particularmente era adepto da Anarquia (como dito mais acima, era a provação máxima do jogo), mas achei lindo quando todo mundo chegou no Safari e… pera, deixa eu explicar. O Safari do Pokémon Red é um local onde você precisa pegar dois itens essenciais para a continuação da jornada. No entanto, como o modo Anarquia estava dominando o jogo, muitos acharam preocupante isso. Afinal, o Safari tem um limite de 500 passos. Ou seja, você pode andar 500 vezes com o personagem antes de ser expulso de lá. Com o caos gerado pelos comandos, e sem direção certa a seguir, o Red esgotaria seus passos antes de chegar aos objetivos, custando tempo e dinheiro. E como o dinheiro era limitado, muitos acreditaram que esse seria o fim da jornada. Para não perderem o objetivo-mor, que era fechar o jogo, os defensores da Anarquia se juntaram aos defensores da Democracia e TODOS (como exceção dos trolls) votaram para que a Democracia prevalecesse, e assim guiamos o Red lentamente para todos os objetivos do Safari antes que nossos passos se esgotassem. Na boa mesmo, isso foi de emocionar.

E o melhor de tudo foi a história que criaram para Red, o nosso herói. Como o personagem do jogo era controlado por vários comandos aleatórios, foi colocada a interpretação de aquele garoto saiu de Pallet porque “as vozes” o comandaram. Essas “vozes” o fizeram seguir pela jornada, lutar contra as maiores adversidades e se tornar, enfim, um mestre Pokémon. Derrotar Blue no estágio final da Elite Four foi o que finalmente calou “as vozes” da cabeça de Red, e ele pôde retornar para sua casa. Agora tudo estava quieto. Ele poderia retornar à paz. Isso foi colocado de uma maneira muito bonita em uma tirinha postada pelo 7ofDiamonds no subreddit do TPP.

Foi algo bem lindo de acompanhar. Foi não só uma experiência social, mas antropológica, filosófica, religiosa e até voltada para o game design. Eu adorei ter participado disso tudo, de ter visto a stream TODOS os dias desde o seu terceiro (de um total de 16). É algo que eu, como estudante da área, certamente vou contar para os meus filhos e netos mais pra frente. Além do mais, adoraria trabalhar em um jogo que abordasse os mesmos conceitos básicos de mecânica do TPP.

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