Robocop: O clássico e o novo.

Ontem eu praticamente respirei Robocop. Almocei assistindo o clássico de 1987, fui ao cinema assistir o mais recente e depois tentei absorver o máximo das discussões e podcasts sobre os filmes. Qual é a dos filmes, então? Vamos aproveitar esse dia chuvoso e conversar sobre eles.

O clássico

O primeiro Robocop foi lançado em 1987, sob a direção de Paul Verhoeven – conhecido pela sua visão ultraviolenta -, e apesar da seu caráter futurista, ele foi tido como uma relativamente fiel representação da época. Retratando uma Detroit inundada em criminalidade e violência, Robocop se estrutura na sátira da sociedade para construir uma crítica social que, mesmo tendo sido apresentada a 27 anos, continua atual.

“E que crítica é essa?”, você pode se perguntar. Pra começar há a questão da manipulação corporativa sobre os cidadãos. A OCP – provavelmente a maior corporação da época – domina os principais setores da época, mas há um projeto de esticar o domínio para a segurança privada da cidade de Detroit. O projeto apresenta o ED-209, uma máquina enorme, considerada o “policial que não precisa dormir nem comer”. Visando apenas no lucro e na comercialização do ED-209, o projeto apresentado se mostra repleto de erros de software, e isso leva a uma das mais chocantemente violentas cenas do filme. Isso me faz pensar nos motivos pelos quais o filme, tão veiculado na década de 90 (eu lembro de vê-lo no SBT e na Globo durante a tarde!), foi retirado do ar e raramente reapresentado.

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Logo após mostrar o caos e a violência inserido nas corporações, é hora de focar em Alex Murphy. O policial tem um dos desenvolvimentos de personagem mais interessantes que eu vi, e vou separar os próximos parágrafos para falar dele. Assim que somos apresentados ao Departamento de Polícia de Detroit, somos também apresentados à rotina dele: um lugar comum, repleto de pessoas comuns, mas que vivem sobre a sombra da morte iminente. É possível sentir a densidade do ambiente quando os superiores aparecem no vestiário e retiram o nome de um dos policiais do armário, indicando que ele havia sido assassinado em serviço. É como um lembrete de que todos ali PRECISAM estar prontos para sair pra um trabalho que pode acabar com a vida deles. 

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Um dos marcos da evolução do personagem do Alex Murphy acontece pouco tempo depois, após ele ser emboscado por uma gangue que estava perseguindo com a sua parceira, a Lewis. Quando finalmente desarmado, Murphy é brutalmente mutilado e assassinado num fuzilamento. Esse é o primeiro bastião na ‘jornada do herói’ aqui, a saída da zona de conforto. Só que por zona de conforto nós entendemos ‘vida’, apenas para se ter um comparativo do impacto desse filme. No entanto, graças a um segundo projeto da OCP, Murphy é realocado num corpo robótico, afinal a presença e inteligência de um ciborgue seria muito mais confiável que o raciocínio binário do ED-209. E aí que entra outro questionamento interessante do filme, porque a partir desse momento Murphy se torna uma ‘máquina’, um produto da OCP. A perda da sua humanidade (a morte) e o seu aprisionamento (o ciborgue) o tornam um novo ser, denominado Robocop, e pronto para eliminar o crime da cidade de Detroit.

No entanto, é interessante ver como o cérebro de Murphy ainda se comunica com a máquina. Um dos “signature moves” do Robocop é girar a arma no dedo antes de colocá-la no coldre, algo que Murphy fazia para impressionar o filho. Isso levanta a discussão sobre a real natureza aqui. Ele ainda seria o Murphy ou havia se transformado no Robocop?

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Para a OCP, ele obviamente continuava como uma mera máquina e produto. Mas as ações que o Robocop vai realizando no decorrer do filme fazem ele tender para o lado da persona do Alex Murphy, como na cena em que ele, o Robocop, sonha com a família de Murphy. O sonho por si só já é um sinal da força do seu lado humano se sobrepujando sobre a máquina, mas aquilo, para o Robocop, é apenas um espasmo de sensações que ele não conhecia até então. Quando ele levanta da sua cadeira, revoltado e atordoado pelo acontecido, ele se depara com Lewis, sua antiga parceira, que finalmente quebra o silêncio: “Seu nome é Murphy!”. O interessante dessa cena é que, pela primeira vez em todo o filme, o Robocop dá um passo para trás. Isso mostra uma fragilidade e insegurança, emoções típicas de um humano. É provavelmente um dos momentos mais bonitos do filme.

Outras cenas lindas aparecem na escalada do Robocop de volta para a humanidade. A cena em que ele revisita a casa da família Murphy, com todo o seu clima etéreo, é extremamente tocante, especialmente se você reparar na maneira desajeitada como ele se comporta lá dentro. A cena em que ele olha para a TV e se lembra do filho é bastante interessante também, porque as memórias da própria família do Alex Murphy começam a transbordar na mente do Robocop. Ainda falando de algo com esse teor mais emocional, há a cena em que ele finalmente retira o visor e olha no espelho o seu rosto. O olhar de desespero é tão repleto de adjetivos que me lembra a cena da igreja em The Hunt, onde o Mads Mikkelsen consegue transbordar uma dúzia de emoções apenas com um olhar. E é interessante ver essa interpretação do Peter Weller, porque ele chega a um ápice de emoção dentro dos parâmetros do próprio Robocop. É o momento em que aquele ciborgue fica dominado pela sua parte humana, acredito eu, e a interpretação daquela forma mostra que estamos vendo um homem de verdade dentro daquela armadura toda.

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A cena final do filme, o fim da jornada do Robocop para a sua parte humana, é certamente a mais bonita do filme. Após uma das cenas mais geniais do cinema, que é quando Dick Jones é demitido da OCP, temos o Robocop sorrindo novamente, e ao ser perguntado pelo presidente da corporação qual seria o seu nome, ele, o Robocop, finalmente responde: “Murphy”. Fade out. Tela preta. UFA! Após ter sua humanidade brutalmente retirada e enjaulado num corpo mecânico, Murphy se tornou o Robocop e, nessa forma, foi caminhando lentamente e se reaproximando do seu lado humano. Uma puta história linda, diga-se. Apesar da roupagem violentíssima aplicada por Verhoeven – e condizente com a representação da Detroit apresentada ali – o primeiro filme é um clássico por sua história, mesmo possuindo alguns furos de roteiro bem chamativos. O importante a se dizer aqui é: Robocop, o filme clássico, passa longe de ser perfeito, mas se supera por ter uma história fenomenal e extremamente bela, especialmente para os fãs de sci-fi e leitores de Asimov/K. Dick/C. Clarke.

O novo

Antes de começar a falar sobre esse Robocop de 2014, vou deixar claro que fui ao cinema pronto para assistir o filme independentemente. Nada de comparar com o clássico. Não ia conseguir chegar a lugar nenhum dessa maneira, então foi o melhor a ser feito. Tendo dito isso, vamos começar pela parte boa do filme.

Disparadamente, um dos pontos fortes desse novo Robocop é Pat Novak, personagem do Samuel L. Jackson. Ele é a encarnação do Marcelo Rezende/Datena numa roupagem ufanista/futurista, mas com o mesmo nível de atitude exagerada e sensacionalista. Certamente ele ganhou essa “face” por sugestão do Padilha, acostumado com esses programas de ‘jornalismo de criminalidade’ que são transmitidos aqui no Brasil. Ao lado desse personagem memorável, há também uma questão muito interessante relacionada à ilusão do livre-arbítrio por conta do Robocop; Acredito que é uma crítica posta diretamente para o público, que acredita ser dono de suas próprias decisões, quando na verdade é manipulado por diversas forças. É algo bem interessante de se analisar, e algo que realmente fica te martelando a cabeça. Mas infelizmente é só isso.

O restante do filme viaja entre o ruim, o esquecível e o mediano. Primeiro, vamos considerar o tal “projeto Robocop” aqui. Ele veio para aumentar a credibilidade das máquinas num meio onde o preconceito e a insegurança reinam, devido especialmente ao raciocínio binário e incerto das atuais máquinas americanas, servindo de pacificadores e antiterroristas em combates internacionais. Para que esse marketing positivo ocorresse, a OmniCorp precisava colocar uma máquina com jeito mais ‘humano’ nas ruas de Detroit.

Alex Murphy entra em cena aqui se mostrando um combatente da corrupção dentro da polícia. Quando ele sofre um atentado e entra num estado crítico, sua família é acionada para que ele se torne parte do projeto Robocop. “É isso ou a morte”, a executiva da OmniCorp responde para Clara Murphy, mulher de Alex. Quando o Robocop finalmente acorda, temos um momento interessante, o surgimento da “máquina” aqui. Só que, justamente por conter o cérebro de Alex ainda funcional, o Robocop é extremamente humano. Era esse o diferencial que a OmniCorp desejava, e que é facilmente alcançado.

O problema é a partir daí. Primeiro, a escolha do presidente da OmniCorp de trazer um “uniforme preto, mais tático” pro Robocop. Vamos considerar dois fatores. O primeiro é que o uniforme prateado, segundo o gestor de marketing lá, era “favorito” entre as crianças. O preto, justamente pelo seu teor mais sério e tático, torna também o Robocop mais intimidador. Se o objetivo era fazer com que as máquinas se tornassem mais carismáticas entre as pessoas, por que criar algo com a capacidade de ~intimidar~? Bom, eu não sei qual o motivo real por trás disso, mas aparentemente as pessoas de Detroit compraram a ideia e isso funcionou.

Ainda falando em Detroit, não há nada – além do marketing positivo pros OUTROS robôs – que justifique a presença do Robocop em Detroit. A função PRIMORDIAL dele ali é aumentar a confiança das pessoas nas máquinas de combate dos EUA, para que elas sejam implementadas dentro das cidades como combatentes do crime. O Robocop nada mais é do que uma ferramenta. Isso é uma motivação bem fraca para a existência do personagem, o que deixa o restante das motivações que o permeiam tão fracas quanto.

Lembram que eu falei que o Robocop era bastante humano? Então, isso é um problema bizarro. Ele é um personagem bastante ‘humano’ (e que precisa ser assim, para conquistar a confiança da população), mas isso atrapalha o combate ao crime. Para que ele se torne mais intensificado nessas questões, o Dr. Norton (Gary Oldman) faz um upload de todos os crimes não resolvidos de Detroit para a consciência do Robocop. Até aí tudo bem. Mas ele o faz faltando POUCOS MINUTOS para a primeira aparição pública do novo reforço da Departamento de Polícia de Detroit. Não é nem um pouco estranho que ele se torne enfurecido contra tudo e todos por isso. Para aliviar esse ‘excesso de humanidade’, eles alteram a química do corpo do ciborgue, transformando-o praticamente numa máquina zumbificada. Ou seja, indo de encontro com o briefing original do projeto (pela segunda vez). A transformação “humano-máquina” do Robocop é tão vazia quanto a sua viagem pelo caminho contrário, que é tão fraca e esquecível, que eu vi o filme há dois dias e nem lembro mais como é.

Sobre o Robocop em si, pouco há para se falar, também. Ele veio pra ser carismático, mas não atrai atenção de ninguém (em nenhum dos lados da tela); a própria família do Robocop, que é feita para passar a impressão de ser o seu porto seguro/motivo, também é tão não-carismática, que você simplesmente não torce por eles (tampouco entende os motivos pelos quais o Murphy iria se esforçar tanto para reconquistá-los). Fora que ele é EXTREMAMENTE heroico, basicamente um super-herói vestindo uma armadura, e não um homem destroçado realocado num corpo mecânico. É tão bizarro ver a movimentação do Robocop e tentar imaginar que ele é simplesmente um ciborgue.

Passando pras cenas de ação do filme, nós chegamos na parte mais decepcionante do filme. Eu fui esperando NADA além de ação. Eu queria as tretas lá. Mas nem isso é destacável, uma vez que toda a ação do filme é tão fraca e comum que ela simplesmente passa desapercebida na nossa frente. Não há tiroteios memoráveis, nem um combate épico/heróico (já que o Robocop é basicamente um super-herói). É tudo tão fraco e morno que quebra as expectativas de cenas decentes. Fora a inverossimilhança dos combates, onde o Robocop toma TIJOLOS de tiros do ED-209, e sei praticamente ileso do tiroteio. Uma bala do calibre aparente de um ED-209 deveria, AO MENOS, arrancar algumas peças do corpo mecânico, mas nem isso acontece. Triste, bem triste.

Pra fechar, vamos falar das incoerências do filme. A mais gritante, à primeira vista, é o Universo em si. Aqui, é constante o esforço para tornar todos os personagens “cinzas”. Não há nenhum grande vilão em nenhum momento do filme, apenas uma grande guerra de interesses. Eu acho esse tipo de construção sensacional, uma vez que ela se aproxima bastante da realidade. Mas pro final do filme o antagonista REPENTINAMENTE adquire tons escuros, se tornando um vilão. Assim, do nada. Numa ação que foge bastante da base do personagem. Além do mais, ele cria um dos finais mais anti-climáticos e brochantes que já vi. É tudo tão morno/frio no final, que não há como se empolgar. Isso sem falar do método pro Robocop sobrepujar a sua parte “máquina”: Força de vontade. Sim, um pouco de força de vontade e todos os códigos e protocolos são deixados de lado. Puta que pariu.

No final das contas, parece que o Robocop do José Padilha ficou em cima de um muro bem baixo. Ele não sabe se é ação ou se é crítica. Como ação, falha em não fazer nenhuma cena digna de lembrança. Como crítica, ele cai na trincheira de filmes americanos que criticam os EUA. É tudo muito genérico e raso, além de ser um caminho comum INUNDADO de gente. Nada de original ou memorável TAMBÉM. Ou seja, depois de 2h de filme, você sai de lá do mesmo jeito que entrou. Ele não te faz torcer, não te empolga, nem estabelece uma crítica que abra seus olhos. É um filme comum, e só isso.

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