Crítica: No Limite do Amanhã

O Limite do Amanhã é um filme de ficção científica baseado na “light novel” (espécie de livro com ilustrações, focado no público escolar) All You Need Is Kill, do japonês Hiroshi Sakurazaka, que já foi adaptado para o mangá por Ryōsuke Takeuchi. A transposição para o cinema, dada pelo roteiro da trinca Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, e pela direção de Doug Liman (Trilogia Bourne e Sr. e Sra. Smith), torna intuitivo a espécie de filme sendo trabalhado aqui – uma ação -, e é justamente por isso que ele se destaca.

Um dos motores de O Limite do Amanhã, diferentemente da maioria das ações, é a sua narrativa, que se inicia de maneira coesa quando nos apresenta Cage (Tom Cruise), um assessor de imprensa do exército, que é levado para o campo de batalha contra a sua vontade. A guerra aqui é contra uma raça alienígena, os “miméticos”, que são introduzidos brevemente na primeira cena do filme, uma montagem clichê de jornais televisivos relacionando a queda de meteoros na Terra com a chegada desses aliens.

A narrativa se desenvolve mostrando toda série de eventos de Cruise no treinamento dentro da base militar, até o dia seguinte à sua chegada, quando é enviado ao fronte. Planos extremamente abertos, um recurso da ficção científica para apresentar ao espectador aquele novo Universo, podem ser observados duas vezes no momento da saída de Cruise da base militar. No primeiro vemos o tamanho colossal da base, e no segundo o número imenso de aviões que estão sendo levados para o combate. A partir disso somos capazes de deduzir a importância e dificuldade daquela batalha, claramente influenciada pelo Dia D.

Mas a grande força desse plot é justamente quando o filme nos mostra a morte de Cage. O oficial, graças à interpretação notável de Cruise, se mostra um covarde desmedido, e ele sobrevive a apenas cinco minutos no campo de batalha. Mas antes de morrer ele consegue matar um raro alienígena inimigo, e  o contato com o sangue desse alien faz com Cage acorde novamente na base, em circunstâncias similares às de quando chegou por lá. Esse loop temporal é algo familiar para quem assistiu filmes como Questão de Tempo ou Crimes Temporais que, assim como No Limite do Amanhã, se utilizam desse “problema” temporal para construir a narrativa.

É partindo dessa proposta que a direção e o roteiro se sobressaem. Cage fica preso num ciclo que se inicia com ele acordando na base militar e se encerra com a sua morte. A partir daí o espectador também é levado por um jogo de dedução, sem saber exatamente quando um evento ocorre pela primeira vez ou quando ele já aconteceu diversas vezes antes. Mesmo quando algo acontece pela primeira vez na tela, podemos perceber após alguma reação extraordinária que aquilo já foi vivenciado várias outras vezes. A atuação de Cruise aqui é um grande destaque, porque ele é didático em mostrar eventos inéditos ou repetidos simplesmente pelas suas expressões faciais e vocais. Mas é necessário pontuar que, mesmo quando a história está indo e voltando dentro do mesmo espaço de tempo, vemos que a narrativa vai se tornando cada vez mais atrativa e interessante , fugindo do tédio que seria comum para esse tipo de construção. Um trabalho excelente de montagem, direção e roteiro, sem dúvida alguma.

No entanto a minha maior surpresa é com a Emily Blunt. Conhecendo-a apenas de Clube de Leitura de Jane Austen, Agentes do Destino e O Diabo Veste Prada, foi embasbacante vê-la interpretando Rita Vrataski em cenas de combate tão bem construídas. Utilizando um exoesqueleto bélico e uma espada (que me lembrou a Buster Sword de Cloud, do jogo Final Fantasy VII), ela se tornou uma estrela da guerra, nomeada publicamente de Angel of Verdun e internamente de “Full Metal Bitch”. A ação – não apenas de Blunt, mas do filme inteiro – é bem influenciada pelos mangás, com suas lutas acrobáticas e elegantes. A transposição disso para o cinema veio em soma com uma steady-cam, dando um ar documental para essas cenas,  criando um equilíbrio a fim de tornar o combate mais crível.

É interessante também acompanhar a evolução dos personagens, especialmente o relacionamento Cage/Rita. Enquanto Cruise está condenado a viver o mesmo dia diversas vezes até encontrar uma maneira de se livrar disso – busca essa que se torna sua missão -, ele vai se aproximando cada vez mais de Blunt, que por sua vez está conhecendo-o pela primeira vez. Esse loop cria um relacionamento peculiar e interessante, que acrescenta valor dramático durante o terceiro ato, mas também é a fonte de um dos maiores problemas do filme.

O já mencionado terceiro ato se dá por uma reviravolta em toda a estrutura do filme. E justamente por fugir dessa estrutura ele deveria se tornar ainda mais dramático e consequente, mas há uma perda significativa na qualidade e na capacidade de tornar o filme interessante. Ele se desenvolve de maneira mais urgente que anteriormente, mas contraditoriamente com menos força. Essa fraqueza some por alguns instantes durante a luta final, o ápice, mas que acaba desencadeando em final covarde e padrão. É esse final que me deixa mais desapontado com o filme, que poderia ter sido mais crível e impactante se o roteiro tivesse sido mais corajoso. Não chega a estragar a experiência do filme, mas eu fico imaginando o que poderia ser dele se não houvesse esse “freio”.

No Limite do Amanhã certamente me surpreendeu muito. Sua narrativa excepcional – que apesar de não ser original, é desenvolvida de maneira bem criativa -, seus personagens, sua ação e seus combates praticamente retirados das páginas de um mangá… tudo isso se soma para criar uma ótima ficção científica, prejudicada apenas por perder a mão nos momentos finais e, infelizmente, deixar escapar a criatividade utilizada na construção dos seus dois primeiros atos.

 

 

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