[Crítica] Jodorowski’s Dune

“Eu não queria criar apenas um filme. Eu queria criar um deus. Um deus artístico e cinematográfico”. Essa frase, proferida pelo diretor e roteirista chileno Alejandro Jodorowski, é de uma ambição proporcional à obra que ele estava produzindo: Uma adaptação de Duna, de Frank Herbert. O clássico da ficção científica seria transportado para o cinema por um dos criadores mais experimentais do cinema setentista, dono do milimetricamente alucinógeno e surrealista Montanha Sagrada (1973), onde ele trabalha simbolismo e simetria de maneira ímpar.
O documentário se inicia com um breve passeio pelas estantes de Jodorowski. O espectador é capaz de observar as inúmeras referências e coleções que o chileno possui, e assim os leigos em sua obra compreendem um rascunho de sua mente, e preparam terreno para as ideias que ele está por apresentar. Dessa forma é possível criar um entendimento: Jodorowski não é apenas um louco. É um louco estudado.

A criação de Duna se iniciou com o fim de Montanha Sagrada. O filme, que gerou bastante dinheiro e foi a segunda bilheteria em países como a Itália (perdendo apenas para 007: Live and Let Die), convenceu o produtor francês Michel Seydoux a dar liberdade total para Jodorowski criar. Quando perguntado o que queria fazer, o chileno prontamente respondeu: “Duna!”. Não que tivesse lido – na verdade só conhecia o livro por indicação de um amigo – mas ele dizia conseguir sentir a “alma” que aquela obra emanava. E percebia que ela era exatamente o que ele precisava no momento.
O documentário começa a mostrar então, cronologicamente, a criação de Duna. Dos primeiros “guerreiros espirituais” que Jodorowski trouxe para construir sua equipe. O quadrinista Jean Giroud Moebius foi convidado para criar os storyboards, justamente pela sua visão única em relação aos planos. O diretor considerava o francês o seu cinematógrafo, e juntos eles construíram páginas e páginas com uma decoupagem ainda crua das cenas do filme. A equipe ainda se completaria com o – importantíssimo – ilustrador britânico Chris Foss, cuidando do meticuloso design das naves e construções, do também ilustrador H.R. Giger e do designer de efeitos especiais Dan O’Bannon.
Mas não é apenas sobre o projeto de Duna que o filme se concentra. Mesmo após a película tendo sido cancelada (especialmente pelo seu alto orçamento e incompatibilidade com os interesses de Hollywood), ela continuou emanando sua consciência por outras obras. É interessante ver como um filme que nunca existiu pode ter influenciado não apenas os filmes da época em que estava para ser concebido, mas também o Cinema de uma maneira geral. Nicolas Winding Refn (diretor de Drive) se questiona sobre a estrutura dos blockbusters atuais se Duna tivesse sido lançado como o primeiro clássico de ficção científica, antes de Star Wars (que não é ficção científica, mas isso é uma discussão para outra hora). Um filme onde o seu diretor propunha recriar na tela o efeito de uma viagem de LSD teria um impacto muito mais… inusitado do que um jovem Jedi a trilhar o seu caminho pela Força.

Mas Duna não se tratava apenas de pioneirismos. Toda a equipe sagrada de Jodorowski: Foss, O’Bannon, Moebius e especialmente Giger se juntaram posteriormente a Ridley Scott para dar vida a Alien (1979). Muitos dos designs utilizados no projeto inicial de Duna foram emprestados para povoar o universo que Scott planejava para sua saga macabra. O próprio Star Wars ganhou planos e sequências influenciados por Duna. A “visão robótica” que scanneia o ambiente, tão famosa em O Exterminador do Futuro, também foi uma ideia proveniente da mente de Jodorowski e dos traços de Moebius. Isso sem contar a influência direta que o filme proporcionou em Caçadores da Arca Perdida, Flash Gordon e Mestres do Universo. Até mesmo o longo plano idealizado por Jodorowski para iniciar o filme, uma influência direta de Orson Welles (que havia sido contratado de maneira cômica para interpretar o Barão Harkonnen), acabou sendo utilizado como introdução de Contato (1997). Hollywood pode ter rejeitado Duna como um todo, mas ironicamente os seus ecos construíram o que o Hollywood é hoje.

Ecos esses que não se limitaram à perspectiva do Cinema e foram parar também em outras mídias. Moebius aproveitou os storyboards que havia criado e os compilou e reorganizou como o quadrinho L’Incal. O quadrinista argentino Juan Gimenez também criou o seu próprio quadrinho a partir do storyboard/roteiro de Duna, o sombrio Metabarons. De uma forma ou de outra, o filme não se perdeu na História. Como Refn descreveu, “ele evaporou em bilhões de pedaços negros”, cada um deles atingindo uma outra mente e construindo uma nova ideia.

É importante perceber como esse documentário realça os meticulosos detalhes que permeavam a produção do filme. E a partir desses detalhes, o espectador é posto a par de toda a importância que ele tinha para seus criadores. A forma como cada um deles lidou com o cancelamento do filme varia, mas em todos é nítido o sentimento de frustração ou de decepção. Era um projeto gigantesco, ambicioso e revolucionário. Um pouco revolucionário até para os o cinema contemporâneo.

Obviamente, o maior impactado pelo cancelamento foi Jodorowski. Ele largou o cinema algum tempo depois, em 1990, retomando apenas em 2013. Ver o seu “projeto de vida” ser rejeitado enfraqueceu sua motivação em fazer filmes. Esse hiato me deixa questionando o quanto ele poderia ter criado e influenciado o cinema caso Duna tivesse dado certo e ele continuasse a fazer filmes nesses 23 anos. O que seria do cinema hoje se na década de 70 não tivéssemos Alien ou Star Wars, mas sim um filme cujos limites ultrapassariam as barreiras e paradigmas da época (e até alguns atuais), tratando de questões metafísicas, espirituais e ideológicas.

Talvez seja um estudo interessante pegar os dois quadrinhos mencionados aqui e tentar criar essa percepção. Transportá-los para uma perspectiva cinematográfica e compará-los a Alien e Star Wars. O que eles trariam de diferente? O que eles poderiam adicionar ou mudar ao filme como é feito hoje? Eu não sei o que teria acontecido, mas adoraria viajar a uma realidade paralela onde Duna deu certo.

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