Crítica: Street Fighter – Assassin’s Fist.

Eu indiscutivelmente adoro os personagens de Street Fighter. Acredito que alguns deles possuem as histórias mais complexas dentre os personagens dos jogos de luta. O grande problema em relação a esses personagens é o fato de que, por estarem contidos em um jogo de luta – que histórica e essencialmente não abre espaço para o desenvolvimento desses mesmos personagens -, eles acabam se tornando apenas ferramentas para a mecânica de combate. Street Fighter sempre tentou se sobressair em relação a isso, lançando histórias em quadrinhos, desenhos animados e RPGs que pudessem servir de caminho para a evolução intelectual e emocional desses personagens. Infelizmente, quando a franquia aterrissou nos cinemas, o resultado foi catastrófico. E é aí que entra Street Fighter: Assassin’s Fist.

Mesmo não tendo sido criada diretamente para o cinema, a linguagem de Assassin’s Fist é claramente cinematográfica. A série, dividida em 13 episódios, tem um trabalho excepcional de cores e iluminação, fazendo com que elas se configurem como importantes ferramentas narrativas. Desde a super-iluminação do Sensei Gôma (Togo Igawa) e Sayaka (Hyunri), criando uma aura de superioridade no primeiro e de pureza na segunda, até o contraste e composição de sombras com Gôki (Gaku Space), mostrando a sua dualidade devido à prática do Satsui no Hado (uma arte marcial obscura).

O grande diferencial de Assassin’s Fist em relação às outras empreitadas da franquia no cinema é justamente o seu foco. Enquanto um dos filmes – Street Fighter: A Última Batalha – focava no Coronel Guile (Jean-Claude Van Damme) e o outro – Street Fighter: A Lenda de Chun-Li – obviamente apontava na direção da Chun-Li (Kristin Kreuk), aqui pode-se notar o foco para aqueles que são – na visão do público geral, dos fãs e até da própria Capcom – os verdadeiros protagonistas do Street Fighter: Ryu e Ken.

Em Assassin’s Fist nós acompanhamos o treinamento e a rivalidade fraterna de Ken (Christian Howard) e Ryu (Mike Moh). Os planos abertos, que servem para mostrar tanto o isolamento mental e geográfico em que vivem, reforçam a dificuldade existente para se dominar a arte do Ansatsuken. No entanto, essas dificuldades também são representadas por meio da visão de campo, que coloca um Ryu mais focado – tanto no treinamento quanto no plano – em contraposição a um Ken disperso e desinteressado, representado de maneira desfocada.

Essa dualidade é explorada aqui de maneira bastante fiel às origens da franquia. Enquanto Ken, sempre impetuoso e inconsequente, traz suas típicas roupas vermelhas e seu brilhante cabelo louro – cores fortes, quentes e impulsivas -, Ryu se veste de branco, no kimono e na faixa, representando sua paz mental e de espírito. A exploração narrativa dessa oposição se mostra durante todo o desenvolvimento do treinamento, no qual acompanhamos ambos reagindo de diferentes maneiras aos ensinamentos do Sensei Gôken (Akira Koieyama). Um dos momentos mais bonitos dessa dualidade, no entanto, se dá quando o próprio Gôken explica que para ser um mestre no estilo Ansatsuken, é necessário criar um equilíbrio em si. Compreendemos essa pista apenas quando nos é mostrado um plano simétrico onde Gôken janta com Ken e Ryu. Gôken, a balança, se posiciona no centro da mesa, enquanto que cada um dos alunos se coloca em uma lateral. O equilíbrio desses dois pesos, dado por meio do sensei, mostra não apenas que Gôken é um mestre no seu estilo, mas também que Ken e Ryu são equivalentes, cada um da sua maneira.

Outro ponto importante da franquia Street Fighter está no seu nome: Lutas de rua. Em Assassin’s Fist, justamente por seu foco no treinamento e no desenvolvimento de Ryu e Ken sob a tutela de Gôken, as lutas se afastam das ruas para preencherem as paisagens belíssimas de Sofia na Bulgária, que serve como locação para as áreas isoladas do Japão. As coreografias, apesar de em alguns momentos parecerem levemente exageradas, trabalham aqui de forma mais lógica e regrada, mesmo trazendo traços estilizados trazidos do jogo. O mérito é do próprio diretor e roteirista Joey Ansah, que dividiu os trabalhos (tanto de coreografia quanto de roteiro) com o próprio Christian Howard. A firmeza na atuação também é importante para dar um ar mais real às lutas, e tirar um pouco da sensação de que são apenas coreografias.

A narrativa é um dos pontos fortes de Assassin’s Fist. Mesmo focando no treinamento de Ken e Ryu, e no desenvolvimento de ambos como personagens dentro das dificuldades que são apresentadas, o roteiro também não teme em dedicar episódios inteiros ao passado. Pulando para a época do treinamento de Gôken e de seu irmão Gôki, sobre a tutela do já mencionado Sensei Gôma, a série se enriquece por traçar paralelismos dos alunos do passado com o do presente, e de como os enveredamentos pelo Satsui no Hado podem ser catastróficos.

É interessante também acompanhar o desenvolvimento de Ken. Sua jornada, saindo da imaturidade natural de adolescente e culminando numa maturidade já adulta, mostra a eficiência dos roteiristas em criar uma evolução de personagem bastante verossímil. É interessante que isso o afasta um pouco do estigma de “bad boy” que o jogo atribui por seu visual e ações, ao passo que designam um embasamento mais humano e dramático para ele. Concomitantemente temos um Ryu fugindo um pouco das suas ações regradas e comedidas, tendo o ápice quando o vemos aderindo finalmente à faixa vermelha tradicional, retirada do uniforme de Ken como um curativo e, posteriormente, como lembrança da luta que ambos tiveram. Isso nos mostra um Ryu em paz com a sua alma, mas não tanto assim com a sua mente.

Referências também são um ponto alto da série. Tanto a personagens da franquia como Dan e Guile, quanto a fases do jogo, e até mesmo a outros jogos (a cena de Ryu e Ken jogando Mega Man II é ao mesmo tempo nostálgica e bastante divertida). Elas são interessantes para contextualizar o espectador no Universo do Street Fighter, que possui uma mitologia gigantesca e que também é pouco explorada em mídias que não o videogame, e ainda assim de forma bastante superficial.

Fico contente em ver uma série abordando a franquia Street Fighter com tanto respeito. Não só durante toda a produção, mas também em relação às personalidades dos personagens e seus desenvolvimentos. Como já disse, o roteiro é a grande força motriz dessa série, que funciona justamente por criar ciclos e entregar pistas que vão se resolvendo e se fechando de maneira eficiente durante a construção da narrativa.

 

P.S.: E o melhor de tudo é que essa série pode ser assistida toda online, com áudio e legendas em inglês, no canal da Machinima.

 

 

 

 

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[Curta] Project Kara

Kara é um curta escrito e dirigido por David Cage, a cabeça por trás da Quantic Dream. Para os que não estão familiarizados, a Quantic Dream é uma empresa de jogos francesa responsável por clássicos como Fahrenheit (conhecido no Brasil como Indigo Prophecy) e obras de arte como Heavy Rain. No entanto, justamente por sempre prezar por um realismo nas expressões dos personagens – que, segundo Cage, é a chave para transmitir o teor emocional da história – e por passear indistintamente por cima da linha que separa filmes e jogos, a Quantic Dream sempre teve um ar cinematográfico. Não impressona que os testes de engine que eles realizam sempre são em formato de curta.

E o Project Kara é justamente um desses testes de engine, realizado em 2012. Protagonizado por Valorie Curry (The Following), que empresta suas feições e emoções para a androide Kara, o curta explora uma discussão famosa, já abordada por Phillip K. Dick e Isaac Asimov: O que define e distingue um ser vivo de um objeto? As referências da obra de K. Dick e, consequentemente, Blade Runner são diversas, e é possível traçar alguns paralelos entre ambos. Mas o que realmente impressiona é o teor mais emocional desse curta, bastante tocante e comovente.