[Crítica] – Boyhood

Em Boyhood é possível notar o auge do cinema observador de Richard Linklater. Enquanto na Trilogia dos ‘Before’ é possível acompanhar um casal por alguns dias, Boyhood convida o espectador a acompanhar toda a infância e adolescência de um jovem garoto americano. Mas esses rótulos pouco importam, porque o filme não é uma visão exclusiva de determinado gênero, cor ou classe social. É um filme sobre experiências de vida e memórias. Um filme sobre o que é ser Humano.

O grande destaque aqui é certamente a visão de Linklater em relação à vida, e a forma como ele utiliza sua câmera para capturar essa visão. Desprendendo-se completamente de grandes momentos e de dramas ‘cinematográficos’, o diretor se aproxima de situações mais palpáveis e naturais. Isso é uma característica comum de seus filmes, mas em Boyhood isso se intensifica de uma maneira que, às vezes, o espectador pode ser condicionado a achar que está acompanhando um documentário sobre uma família comum.

Apesar do foco em Mason Jr. (Ellar Coltrane), é impossível negar a importância que o pai (Ethan Hawke) e a mãe (Patricia Arquette) aplicam à história. A dupla cresce quando está em cena, ditando inclusive o tom do momento de acordo com a personalidade de seus personagens. Seja algo mais divertido e descolado com o pai – especialmente nos dois primeiros atos -, ou algo mais sério e protetor com a mãe. E é interessante ver como o núcleo dessa personalidade se mantém mesmo com a evolução constante dos personagens. É como se Linklater quisesse mostrar que envelhecer e mudar é algo normal, mas sem deixarmos de lado quem realmente somos.

Boyhood também é um filme sobre envelhecer. A partir do momento em que a tela se abre, mostrando o céu azul, e depois se vira para mostrar o jovem Mason deitado sobre a grama, os personagens começam o seu processo de envelhecimento e evolução. Apesar de alguns se manterem estagnados, como o pai nos dois primeiros atos, ou evoluírem de maneira negativa, como geralmente acontece com os padrastos de Mason Jr., essa constante mudança pode ser vista não somente no que os personagens apresentam, mas também nas feições dos atores. A decisão de Linklater de filmar durante 12 anos (entre 2002 e 2014) aproxima esse filme das longas séries de TV, onde incentiva-se a aproximação com os personagens não apenas pela identificação com eles, mas também por fazer o espectador acompanhar o seu envelhecimento. É como se observássemos várias memórias da cabeça de um amigo, durante vários momentos de sua vida.

Aliás, dois pontos importantes a serem pontuados são justamente esses: Memórias e Amigos. A forma como o filme é construído, sem definir perfeitamente a passagem do tempo, dá ainda mais a sensação de revisitação de memória. É possível ver o tempo passar, como já dito, a partir dos rostos dos atores e de suas mudanças físicas, mas não somente isso. Nós, pessoas, relembramos do momento exato de certos fatos a partir de algumas pedras-fundamentais. Em Boyhood, Linklater não se prende às constantes demarcações como “o primeiro beijo” ou “a primeira namorada”. Esses momentos, aliás, nem são vistos no filme. Ao invés disso, ele nos mostra as eleições americanas de 2008 e todo o movimento pró-Obama. Mas não só isso. Ele também marca o tempo a partir das músicas, começando o filme com Coldplay e construindo o terceiro ato com The Black Keys. São formas interessantes de fugir de uma fórmula, e com um resultado que evoca ainda mais nostalgia para o espectador, especialmente se ele tiver crescido na década de 90/2000.

Já a amizade é parte do cinema observador que Linklater tanto preza. Em Boyhood nós somos convidados a sentar com aquela família durante suas conversas, acompanhar o que eles estão conversando e sentido. O melhor exemplo disso é durante a festa de quinze anos de Mason Jr. no rancho do seu avó por consideração. Na disposição dos personagens, sentados em círculo, a câmera se posiciona num espaço vazio. Nós, como espectadores, tomamos aquele espaço como nosso e, junto com os personagens, fechamos o círculo. E a forma como a câmera se move nessa cena, acompanhando a reação de todos os personagens ali, mimetiza muito bem a movimentação dos nossos olhares durante momentos assim. Certamente a minha cena favorita do filme, justamente por essa interação.

E justamente por colocar o espectador no meio de uma “conversa entre amigos”, o filme passa muito rapidamente. As quase três horas mal são sentidas, e eu acredito que essa tenha sido a verdadeira intenção de Linklater. Ao final do filme, sem termos percebido o tempo passar e ao vermos Mason Jr. indo para a faculdade, temos a mesma sensação da mãe de acharmos que “tudo passou muito rápido”. E passou mesmo. Pois é exatamente assim que a vida é. Doze anos se passam em três horas quando você olha para trás para lembrar da sua vida. E o que vai te marcar são os momentos que você passou e as pessoas com quem você estava. O que Mason Jr. se tornou foi construído com base nas conversas que teve com o seu pai, com sua irmã (vivida por Lorelei Linklater, filha do diretor), com sua mãe… com todos. Ele, assim como nós, é resultado das interações que teve. E o final, com uma simples troca de olhares, mostra que essas interações vão acontecer até o fim de nossas vidas.

Já diria Tobias Sammet: “Prefiro morrer com 80 anos e evoluir a minha vida inteira, a morrer com 30 mas só ser enterrado aos 80”.

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